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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sobre Bolsonaro: sem "mito", nem "minions"

Sim, esta é uma era de notícias falsas. Mas não é a única. O que é inédito em nosso tempo é a forma na qual clichês ganharam força para se propagar e explicar fenômenos extremamente complexos. O grande caso é a eleição de Trump. Thomas Friedman, colunista do New York Times, provou isto com “A Road Trip Through Rising and Rusting America”. É um relato no qual grande parte dos chavões que serviram para explicar a eleição do novo presidente dos EUA foi desmitificada. A ideia de que o país é hoje separado entre as costas liberais e desenvolvidas e o centro atrasado é reducionista. Uma das conclusões da viagem.

As pesquisas erraram mais na França do que nos EUA. Clinton venceu no voto popular, o que era previsto pelos institutos. A vitória de Macron por 66% foi seis pontos acima do previsto, portanto, acima da margem de erro. Mas o sistema norte-americano prevê a eleição por colégio eleitoral, ou seja, 50 pesquisas paralelas deveriam ser realizadas. E a imensa maioria acertou dentro da margem de erro, com exceção de Michigan, que tinha problemas nas amostras, o que foi alertado o tempo todo pelo excelente Guga Chacra. Variando de acordo com a base, dá para se dizer que menos de 2% das pesquisas dos EUA erraram. Valor irrisório perto do alarde.

E aí, chegamos às autocríticas da mídia. “A exposição de Trump foi desmedida”, “não ouvimos os eleitores do interior”, “fizemos falsa equivalência com os escândalos de Trump e Clinton”. Críticas válidas, mas que não servem para explicar a eleição como um todo. Enquanto isso, o relato de um militante de Bolsonaro à BBC Brasil pode fazer muito bem este papel: “Os jornalistas pensam diferente da massa brasileira. Eles publicam essas posições achando que o pessoal vai ficar indignado, mas a grande massa pensa que ‘bandido bom é bandido morto’ e é isso que Jair prega”.

Claro que a afirmação é reducionista e não abarca as teorias aprendidas nas faculdades de Comunicação, sendo uma afronta à “Teoria da Agulha Hipodérmica”, Adorno, Horkheimer, Habermas e tantos outros que nos mostram que a mídia é indissociável da opinião popular. Mas se a eleição de Trump deveria nos ensinar muitas lições, e deveria por conta das semelhanças com o fenômeno Bolsonaro, uma é a de que devemos escutar mais o público.  E neste caso, o autor da frase tem muita razão.

Tenho grandes amigos que gostam de Bolsonaro. A despeito do atual manual brasileiro de boa convivência, que prevê excluir a discussão política, gosto de ouvir suas motivações. E vejo que assim como os eleitores de Trump, há críticas pertinentes em suas ideias.

Existe uma posição ideológica predominante nas faculdades, sobretudo das áreas de humanas. Enquanto grandes educadores explicam com eloquência teorias progressistas logo que os estudantes saem da escola, ainda com as visões maniqueístas de mundo comuns à idade, quem não concorda com as posições dominantes se vê órfão. É muito raro que um grande pensador conservador seja apresentado a estes alunos na faculdade. Há um vácuo que faz com que ideólogos rasos ou extremistas ganhem espaço junto a estes. Noto que alguns são sim competentes, mas tendem a adotar discursos mais radicais para ganhar espaço. Outros são simplesmente fracos.

Neste vácuo existe um incômodo com as batalhas por direitos civis. A imensa maioria destas é válida, e merece apoio. Mas no sentido maniqueísta e reducionista de uma sociedade que opina com base em manchetes, o extremismo encontra terreno fértil. Daí a surgirem casos surreais como a “polêmica” sobre apropriação cultural. A resposta dos incomodados, em um país ainda muito conservador, tende a ser extrema. E dalhe #Bolsomito2018 para lá.

O Brasil lidera o ranking global de homicídios, com quase 60 mil assassinatos ao ano. Destes, menos de 10% terminam com o responsável preso. Quando este é o destino, um sistema carcerário criticado internacionalmente não reabilita o criminoso, que volta às ruas para se deparar com uma reincidência de aproximadamente 70%. Este é o cenário dos que não podem pagar caros advogados, ou não possuem o foro privilegiado, que abarca entre 20 e 50 mil de brasileiros, variando de acordo com a fonte, mas sem paralelos em qualquer outra parte do mundo, independente do valor. Um sistema penal que não inibe que crimes sejam cometidos e não reabilita perpetradores. A sensação de injustiça é generalizada, surgindo daí o terreno fértil para o apelo de “lei e ordem”.

Em uma sociedade que maltrata a palavra, e os termos perdem sentido, adjetivos como “fascista”, “opressor” e a corrente de “ismos”, muita das vezes incongruentes, acabam fazendo com que estas graves acusações se tornem vazias, e até mesmo apropriadas pelos acusados. O paralelo entre Bolsonaro e Trump é a apropriação do termo “opressor” por parte dos apoiadores, em uma semelhança com os “deploráveis” trumpistas, palavra utilizada pela candidata Clinton para designar seus opositores, em seu pior momento na campanha.

Portanto, quando o melhor jornalista possível, ou o veículo mais respeitável faz criticas a Bolsonaro, o apoiador faz uma falsa equivalência de que a opinião expressa ali tem o mesmo valor de um dos opositores mais rasteiros. Neste cenário surgem as expressões de que New York Times, CNN, Folha de S. Paulo, El País Brasil, todos fazem parte de um conglomerado liberal-esquerdista da mídia que hoje não tem mais valor. O caso é muito semelhante nos EUA e no Brasil.

Então, como desaconselhar o voto em alguém que representa um perigo, sem citá-lo? Esta é a grande questão. E aí, cabe sair do lugar comum. Ao invés de classificar uma série de “ismos” para um candidato, que, de fato, não tem acusações importantes de corrupção ao seu cargo em um momento em que descalabros sobre a classe política vêm em velocidade incompreensível para o brasileiro comum, convide à reflexão.

Nenhuma reforma política mudará o sistema no Brasil que se convencionou chamar de “presidencialismo de coalizão” antes de 2018. Por meio deste, o presidente tem o poder, mas tem de exercer o mandato oferecendo condições favoráveis a uma base aliada, correndo o risco de sofrer um processo de impeachment caso perca esta articulação. Bolsonaro pertence a um partido pequeno, o PSC, e por um muito provavelmente concorrerá às eleições. A votação da legenda deve ser baixa para o Congresso, o que levaria um presidente a ter de fazer uma coalizão com uma série de partidos. Isso indica que para governar, Bolsonaro terá de se aliar a um dos grandes, quem sabe até dois, entre PMDB, PSDB e PT.

Diferente de outros presidentes que não tinham propostas tão específicas, a situação de Bolsonaro é especial. Assim como Trump, caso assuma, teria de mostrar serviço, já que não pode deixar a sensação de ser como os outros, o que iria enfurecer seu eleitorado. Sem pragmatismo e com votações específicas para serem levadas à casa, o custo pago seria alto pelo minoritário presidente. A chance das barganhas serem ainda maiores que em mandatos anteriores é grande, e lá se vai o trabalho da Lava Jato.

O Congresso é só um dos desafios com os quais o futuro presidente do Brasil terá de lidar. O eleito irá assumir um país após sua mais grave crise econômica da história recente, e não podemos nos dar ao luxo de votar em uma eleição com base em ofensas rasteiras como as que vemos hoje na internet. Precisa-se, e talvez como nunca antes, discutir os grandes aspectos para colocar a nação com quase 14 milhões de desempregados nos eixos. Como mudar a carga tributária com desoneração do consumo? Um Banco Central independente pode valer à pena? Como incentivar a inovação no país, facilitando patentes privadas ou fomentando as universidades públicas? Como superar o gargalo da infraestrutura? Este é o tipo de questão que deve ser respondida, não se um congressista está certo ao cuspir em outro, já que foi ofendido.

A eleição de Bolsonaro é um cenário provável? Acredito que não. O sistema eleitoral americano é único, e a exemplo da França, nosso pleito tende a rechaçar candidatos mais extremos. Nota-se que não disse impossível. Mas uma votação expressiva de Bolsonaro é um grande retrocesso. O apoio que o pré-candidato deu a um torturador da ditadura é terrível. Expressões como as suas referentes aos quilombolas são muito negativas. A lista é enorme e há muitos bem mais familiarizados com ela para dissertá-la. Mas uma votação expressiva mostraria que parte da sociedade não está bem representada, e tem anseios reais, não podendo ser tachada com “deploráveis”. O filme se repete, mas dessa vez temos como apertar “pause”.

Até mesmo encontrar uma foto que não represente polarização é complicado (Foto: Igo Estrela/ÉPOCA)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Brasil não virou uma Venezuela, mas criou algumas

Durante o governo Dilma, não era incomum acusações de que os petistas estivessem tentando transformar o Brasil em “uma Venezuela”. A crise no país vizinho já se arrastava há algum tempo nesta época, e determinados setores temiam que esta pudesse se repetir aqui. E em partes, se repetiu como nos mostram as tensões no Espírito Santo e no Rio de Janeiro envolvendo, sobretudo, a segurança pública.

A Venezuela conta com as maiores reservas de petróleo do mundo. Os hidrocarbonetos representam 95% das exportações do país, e correspondem a cerca de 25% de seu PIB. Quando o barril de petróleo chegou próximo aos 150 dólares, o governo chavista aumentou exponencialmente os gastos públicos. Com a queda no valor da commoditie, que chegou a custar menos de 30 dólares em 2016, os venezuelanos passaram a conviver com uma crise que se alastra até hoje. Índices como a ausência de 70% dos produtos em supermercados e a maior inflação do mundo marcaram a gravidade da situação. A violência se alastrou, levando Caracas ao posto de cidade mais violenta da Terra, com 119 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2015.

Em 2017, o posto de município mais perigoso poderia ser tomado por alguma cidade do Espírito Santo, em caso de prolongamento da crise da segurança pública. Em uma semana no Estado, 121 pessoas foram mortas, número que supera mais de 90 países em um ano inteiro. Estima-se que o Espirito Santo, segundo maior beneficiário dos royalties do petróleo, tenha sofrido uma queda recente no PIB de 19%, situação que se agravou por conta da tragédia envolvendo a Samarco.

No Rio de Janeiro, grande receptor dos fundos oriundos do petróleo, a queda estimada no PIB foi de 7%, mas em determinadas cidades a situação é bem mais grave. Em 2012, com o barril ainda em alta, a “Capital Nacional do Petróleo”, Macaé (RJ), recebeu repasses do governo federal de cerca de 605 milhões de reais, destes quase 90% relativos aos royalties. Em 2016, os recursos ficaram entorno de 266 milhões, menos da metade do recebido quatro anos atrás. Campos dos Goytacazes (RJ), que conta com cerca de 500 mil habitantes, mas graças aos royalties é um dos principais beneficiários de recursos da União, recebeu desta cerca de 1,625 bilhão em 2012, com 82% oriundos dos royalties. Em 2016 os royalties representaram aproximadamente 352 milhões para a cidade, pouco mais de 20% de quatro anos atrás.

Apesar de ter parte importante de sua economia centrada no turismo, Cabo Frio (RJ) sentiu o impacto da queda acentuada no preço do barril. Em 2012, 80% dos recursos federais provinham dos royalties, uma quantia de aproximadamente 318 milhões de reais. Em 2016, o governo repassou entorno de 82 milhões pela commoditie. Mesmo que a participações dos royalties nas transferências para o município tenha caído substancialmente no período, certamente a queda teve grande impacto no orçamento da cidade com menos de 200 mil habitantes.

A grave crise levou ao desemprego. Cerca de 20% dos postos de trabalho fechados no Brasil foram no Rio de Janeiro. A capital do Estado registrou o maior número de novos desempregados em 2016. Além da situação quantitativa, um percurso ao redor do Rio de Janeiro apresenta cenas dignas do Cinturão da Ferrugem nos Estados Unidos, por exemplo, em Itaboraí (RJ), que seria uma das grandes beneficiadas com os royalties, mas que conta hoje com uma “manada de elefantes brancos”, como um grande shopping sem movimento e prédios abandonados.

Assim como na Venezuela, o componente de crise econômica e desemprego gerou um aumento na violência. Em média, em todo o estado do Rio de Janeiro 16 pessoas são assassinadas por dia. No ranking mundial encabeçado por Caracas, que leva em conta homicídios em cidades com mais de 300 mil habitantes, figuram Vitória (ES) na 31º posição e Campos dos Goytacazes (RJ) na 39º, com 42 e 36 homicídios a cada 100 mil habitantes respectivamente.


A lista de países produtores de petróleo no mundo abrange situações bem distintas para continuar sendo reproduzida a ideia de “maldição do ouro negro”. Em nações como Venezuela e Angola, a corrupção e a incompetência generalizaram por todo território a crise oriunda pela queda do preço do barril. No Brasil, país que depende muito menos de um preço alto da commoditie para equilibrar as contas, a má distribuição do pacto federativo gerou um colapso para dois estados, que se veem em falência, e sem garantir sequer a segurança da população. No caso do Espírito Santo, a falta de reajuste salarial deixou os policiais militares com um dos menores salários do país, enquanto no Rio de Janeiro, que não figura entre os melhores ordenados para a categoria, a falta de pagamentos há meses gerou a crise. A propósito, os maiores salários para estes profissionais estão no Distrito Federal, onde o “efeito dominó” da greve não ameaça chegar. Ali, nada de Venezuela. Nem mesmo para se pronunciar sobre a crise no país vizinho.

Situação em Vitória (ES) se descontrolou com greve, mas já não era tranquila /FOTO: (Paulo Whitaker/Reuters)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Brasil maquiavélico

A autoria da máxima “os fins justificam os meios” por Nicolau Maquiavel é questionada ao longo dos anos, no entanto que as ideias do autor de “O Príncipe” indicam que o resultado final deve ficar acima da moral com que ele foi alcançado é inegável. E em tempos de crise, a sociedade brasileira dá mostras que os pensamentos do antigo filósofo vigoram como leis que regem até hoje.

Sendo ou não ainda, “o país do futebol”, o esporte continua como uma grande mostra social do Brasil. Portanto, é sintomático um jogador da equipe de maior torcida do país, após vencer um campeonato com um gol irregular, declarar em entrevista que “roubado é mais gostoso”, pensamento compartilhado por milhões de pessoas sobre o ocorrido. Este episódio aconteceu na final do Campeonato Carioca, na mesma cidade em que seu outro símbolo, o Carnaval, foi vítima de polêmicas quanto às origens do financiamento da campeã Beija-Flor no ano de 2015. A resposta do principal membro da escola, Neguinho da Beija-Flor foi a de que a contravenção deveria receber agradecimentos. A participação de criminosos relacionados com o "jogo do bicho" na realização do Carnaval Carioca é de conhecimento comum, e muitos a defendem por uma “festa mais bonita”. No caso de 2015, a situação envolvia dinheiro oriundo de uma ditadura africana pouco conhecida no Brasil e o endossamento do regime por parte da escola de samba, o que foi esquecido pouco tempo depois.

Ainda sobre desconhecimento e ditaduras, recentemente foi publicada na revista “Época” uma reportagem sobre o uso de gás lacrimogênio brasileiro de forma letal, na repressão de protestos no regime do Bahrein. A matéria abordava inclusive a morte de um bebê por conta da utilização, além de demonstrar o descaso do fabricante quanto ao destino final de seu produto. A história que pode surpreender muitos causa ainda mais espanto com o grande número de comentários, que questionavam até a ocupação do autor da matéria. Muitos defendiam o fabricante, que “pelo menos estaria gerando emprego”.

E o descaso com a moral e a ética por trás dos objetivos alcançados só tende a aumentar na medida em que o sucesso destes seja mais relevante na vida do brasileiro. Pela manutenção de uma relativa estabilidade social, o clichê de que “bandido bom é bandido morto” ecoa por ruas e programas sensacionalistas quando o assunto abordado é a violência urbana. O resultado é uma sociedade que endossa publicamente uma polícia que é criticada no âmbito internacional por conta do alto número de execuções. Além disso, há o absurdo de analisar uma ação policial com X mortos, sendo X-3 “bandidos” sem julgamento, como um sucesso que infelizmente deixou “algumas vítimas”. O ciclo interminável de violência, com aval social, deixa o Brasil com cerca de 60 mil assassinatos por ano e 32 cidades entre as 50 com maior taxa de homicídio no mundo.

Na política, alguns defensores do atual governo apresentam contra as denúncias e condenações por corrupção os “avanços sociais” conquistados nos últimos anos. Além do fato surreal de contra argumentar crimes por conta das melhorias trazidas por eles à sociedade, algo que poderia, por exemplo, inocentar Pablo Escobar e “Chapo” Guzmán, há uma completa falta de questionamento sobre com base em quê foram conquistados estes avanços. A lista de abordagens que podem ser tomadas é imensa, mas ainda sobre armas no Oriente Médio: o Brasil é o quarto maior exportador de armas de pequeno e médio porte do mundo, e boa parte dessa expansão da indústria bélica ocorreu nos últimos governos. Sem praticamente conhecimento nenhum pela população, o Brasil aumentou quase 200% no último ano a venda de armas para a Arábia Saudita. Boa parte delas é usada na Guerra do Iêmen, iniciada ano passado e que matou milhares de civis. Nosso país exporta inclusive munições recriminadas internacionalmente.

As duas maiores empresas brasileiras privadas, em lucro, são a Vale e a JBS. Mineradoras, agronegócio e alto lucro não costumam ser propriamente grandes parceiros das questões ambientais. Apesar de algumas reduções nos índices de desmatamento, a destruição de biomas brasileiros teve um nível bastante acelerado durante os últimos anos por conta principalmente da expansão do cultivo de soja e da pecuária. Por outro lado, o dano ambiental que a mineração traz em longo prazo para rios e solos é difícil de ser calculado, por ser enorme. O completo desastre de Mariana e suas condenações falam por si só. Mas não é de admirar o descaso ambiental por parte de um governo que teve a frase “o Brasil não pode ficar a serviço de uma perereca” como uma das mais marcantes sobre o meio ambiente.

E quais são as reais intenções e atribuições morais daqueles encarregados por julgarem os escândalos do último governo? O principal juiz é idolatrado no país dos maquiavélicos, e deixa claro em um artigo escrito sobre a “Operação Mãos Limpas” na Itália a importância do Judiciário estar associado aos meios de comunicação e a opinião pública para condenar um esquema de corrupção como a Lava Jato. Isso no Brasil, país no qual a maior rede de comunicação é acusada sistematicamente de ter manipulado um debate presidencial que levou a derrota do ex-presidente investigado, além de a revista de maior circulação no país ser, de forma clara, contrária ao governo.

Não é nenhuma surpresa a opinião pública brasileira se colocar ao lado das investigações que vazaram grampos telefônicos na imprensa. No entanto, o que deve ser questionado de maneira imparcial é a validade deste ato, já que a justiça em um sistema pleno de direito como o brasileiro deve levar em conta mais que o clamor popular, ou provavelmente estaria aplicando a pena de morte. 
É gravíssima a divulgação das escutas telefônicas de um chefe de estado, sendo que esta pode claramente interferir em interesses nacionais. E sendo “petralha”, “coxinha” ou qualquer denominação que a insanidade da atual situação possa gerar, é cabível sim a indagação sobre o que ocorreria se o mesmo fosse feito nos EUA.

É imoral condenar de maneira seletiva os acusados de corrupção. Se o resultado final for “colocar os bandido na cadeia” como praticamente todos queremos, este fica bastante comprometido caso tenha havido interesses políticos e partidários durante as condenações, além de permitir que criminosos fiquem impunes.

Em nenhum lugar do mundo nasce uma classe diferente de seres humanos chamada “políticos” ou “eles”. As lideranças surgem, e refletem de maneira bastante precisa a sociedade que representam. E como é repetido incessantemente que o Brasil vive uma “crise de representação”, esta é uma grande oportunidade para questionar se são somente os governantes que não se importam com os meios pelos quais conseguiram suas posições, ou se “nós” teríamos tanta moral para não distribuirmos alguns ministérios para seguir no comando.

Cada vez mais no mundo há uma diferenciação entre “preço” e “custo”. O “preço” seria aquele aparente ao consumidor final, já o “custo” adiciona tudo aquilo demandado no processo. Ver somente os resultados exclui muitos valores fundamentais, já que um país ético, moralizado, justo, e com desenvolvimento sustentável custa muito caro.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Dilma no Divã

Vejo sintomas na personalidade de Dilma que podem ter ajudado a colocar o Brasil na profunda crise atual. O motivo é que apesar de discordar em quase tudo da presidente, vejo grandes semelhanças no modo de agir dela com o meu.
Dilma é economista formada na Unicamp, graduação famosa no Brasil pelo viés de esquerda keynesiana. Eu me recuso a acreditar que durante seu primeiro mandato, Dilma não foi avisada das grandes implicações que a manutenção da política econômica brasileira em meio a uma projeção de dificuldades no cenário internacional, faziam com que a continuidade de elevados gastos sociais sem reinvestimento em infraestrutura pudesse colocar o Brasil onde está. Acredito que a presidente deva ter ouvido os avisos, agradecido por estes, no entanto dito que havia sido eleita com as propostas de não cortar benefícios sociais, e que daria a última palavra, por conta de seu cargo. Deu no que deu.
Se Dilma fosse uma ministra da Fazenda que tivesse dado os avisos e estes tivessem sido dispensados pelo presidente, acredito que ela teria simplesmente feito um ultimato, dizendo que não colocaria seu nome em risco por conta de uma política que não era aquela com a qual ela concordava. A postura se repetiu na articulação política, com a enxurrada de ministros que foram demitidos por Dilma no começo do seu primeiro mandato, o que certamente estremeceu sua relação com a base aliada que hoje em dia é sua maior inimiga. Sem dúvida, houve aviso.
Dilma fez seu mandato de 2011 até as eleições de 2014. Com o país em crise e sua popularidade em baixa, a presidente viu que para manter o poder deveria começar a compor um governo, e óbvio, não gostou disso. Para uma economista ver sua política econômica aplicada durante quatro anos levar o país à ruína, e depois ter que chamar um liberal com uma visão completamente diferente da sua para dar uma guinada totalmente oposta no país, não é fácil.
O mesmo vale para a articulação política, que ficou com o vice Michel Temer, praticamente decretando a soberania do PMDB no poder. A presidente de certa forma terceirizou seu mandato, delegando a economia e a composição do governo a duas visões diferentes da sua e parece que dificilmente vai mudar isso. O resultado é a apatia de Dilma, que parece simplesmente querer a chegada de janeiro de 2019 logo, com o menor número possível de bobagens ditas em seus discursos, e finalmente descansar tranquila deixando picuinhas e ofensas de lado. A lista de interessados pela posição é grande e não quer de forma alguma esperar até as eleições de 2018.
Em uma comparação esdrúxula, mas acho que motivada pelo mesmo fim, acredito que Dilma, assim como eu, detestava trabalho em grupo na escola ou na faculdade. Ela só devia aceitar duas maneiras para fazer tal: ou escolhia e mandava em tudo, independente do que qualquer colega falasse, como seu primeiro mandato; ou simplesmente ficava de lado, sem participar de nada, apenas ouvindo e torcendo para tudo aquilo acabar logo e enfim ela poder tomar uma cerveja no Sebá, assim como seu segundo governo. Talvez a parte do Sebá não seja coisa exatamente da Dilma, mas dá no mesmo.
A questão é a seguinte: há um governo. Ele é composto por deputados, senadores, ministros e boa parte das pessoas mais competentes de um país para fazê-lo funcionar da melhor maneira possível. O líder disso tudo deve saber ouvir e tomar a melhor decisão possível, depois de intensas discussões para saber qual é esta. Eu quero ser um jornalista, não um político, exatamente por saber que eu não sei fazer isso. Se cinco anos atrás alguém também tivesse tomado essa decisão, provavelmente estaríamos bem melhores.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Prêmio das Delações

É bem complicado falar sobre a política de um país em que o resultado de uma investigação tem mais impacto do que as próprias peças do cenário. Soma-se a isso a clara divisão criada no país desde as eleições do ano passado em que comentários um pouco mais críticos ao governo podem levar a uma sentença de golpismo e em contrapartida um elogio já é quase uma nota fiscal para demonstrar que você foi comprado pela situação. Se alguém ainda não percebeu isso, faça o seguinte exercício: abra uma notícia sobre política de um jornal estrangeiro e leia os comentários. Há discussões e argumentos e poucas vezes vi Angela Merkel ser chamada de vaca ou Isaac Herzog ser acusado de golpista.
Claro que o cenário de crise política deriva em grande parte dos fracassos econômicos recentes do Brasil e que enquanto inflação e desemprego estavam controlados, os nomes do vice, do presidente da câmara e do ministro da Fazenda sequer eram de fato conhecidos pela maioria. A partir do momento que uma eleição termina com a oposição fortalecida e o mais alto escalão do governo sob suspeita em uma investigação, o cenário se faz perfeito para a disputa pelo poder.
O PMDB soube explorar isso muito bem, exemplo foi a articulação política ter ficado com Michel Temer com menos de seis meses de novo governo. Uma movimentação que deixou claro que desta vez o partido seria protagonista. A presidência da câmara foi a grande vitória do PMDB que se aliou a oposição e se impôs sobre um governo enfraquecido e que tinha cada vez menos apoio. Medidas de grande apelo popular, junto a uma enorme quantidade de votações que dão a impressão de que a câmara está de fato trabalhando, levaram a Eduardo Cunha uma popularidade alcançada poucas vezes por alguém em seu cargo na história do Brasil. Junto a isso, a alcunha de primeiro-ministro, que se fez cada vez mais verdadeira com a apatia da presidente, o que levou a até comparações desta com a Rainha da Inglaterra.
Tudo indicava que Cunha só esperava o momento certo para romper de vez com o governo, e com sua enorme base de apoio, de fato se consolidar como a principal força política do país, dominando a câmara enquanto a presidente ficava com uma aprovação abaixo dos 10%. Eis que uma delação colocou o político em uma situação complicada, com indícios de que teria recebido 5 milhões de dólares nos esquemas que assolam o país. Cunha agiu rápido e rompendo sua ligação com o governo, conseguiu uma manchete que ofuscou a acusação. Ainda assim a perda de capital político foi enorme e boa parte dos quadros que o apoiavam incondicionalmente não vão querer ter seus nomes ligados a um caso de corrupção. É cedo para decretar seu fim político, ainda assim o primeiro-ministro de sucesso meteórico vai ter que segurar suas aspirações por um tempo.
Com o PT se desgastando cada vez mais, a alternativa para muitos políticos com medo de arranhar sua imagem foi atacar o partido, óbvio, criticando a corrupção e ganhando apoio popular. Marta Suplicy encabeçou o movimento e inclusive rompeu com o PT. Lula, visto como o Dom Sebastião brasileiro, na lenda o rei português que retornaria depois de anos para salvar o país, cada vez mais se distância do governo e já dá mostras de que pode se inspirar em José Mujica e criar uma Frente Ampla de esquerda. Tudo isso, claro, contando que os resultados das investigações permitam a carreira do Dom Sebastião tupiniquim, assim como seu estado de saúde.
O esgotamento do PT fragmentou o principal partido da oposição (a maior oposição é interna, sem dúvidas), o PSDB vê 2018 como momento ideal para vencer as eleições e evidentemente o quadro paulista liderado por Alckmin e Serra não está satisfeito com o candidato natural do partido, Aécio Neves para as eleições. A disputa interna pode dificultar a campanha do partido, assim como a participação de um candidato do PMDB, que é praticamente garantida.
30%. Segundo a agência de classificação de risco Eurasia, uma referência no mundo, essa é a chance de Dilma Rousseff não terminar o mandato. O número é muito alto principalmente levando em conta que ainda faltam mais de três anos para a presidente. A agência demorou muito para aumentar de 20% para 30% a possibilidade e há grandes indícios políticos de que a oposição, apesar de resistência interna, se movimente para um impeachment, e não, isso não tem nada com golpe. Todo este cenário depende do prosseguimento das investigações da Lava Jato e que CPI’s como a do BNDES não sejam abertas, já que estas podem tornar tudo ainda mais complicado para o governo.
Há chances para Dilma e o PT? Acredito que sim, apesar de vencer 2018 sem Lula ser praticamente impossível, uma recuperação econômica pode colocar o partido a ser de novo uma força importante, ainda que não para cargos majoritários. O rompimento de Eduardo Cunha junto às denúncias ao deputado pode ter sido a primeira boa notícia para os governistas em muito tempo. O fato é que 2018 está muito longe e quando o juiz Sérgio Moro passa a ser uma figura mais ativa politicamente que Dilma Rousseff e suas mandiocas, alguma coisa não está certa. A justiça tem seu preço.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

É a Economia, estúpido

O título é uma referência à campanha de Bill Clinton em 1992, que buscava mostrar que os problemas dos EUA no geral começavam com o mau momento econômico do país. No Brasil em 2014, excetuando aqueles que dizem não ver a crise e que vão achar tudo isso sem sentido, os problemas políticos não podem ser dissociados do difícil momento econômico que o país atravessa. Incompetência administrativa, gastos públicos excessivos e a corrupção aparecem como os principais vilões, mas há questões além dessas.
As dificuldades começaram a aparecer no meio do governo Dilma, um grande marco para entender como o desempenho econômico de um país é visto no estrangeiro são as referências a este na The Economist. Em meados daquele ano, uma capa da revista foi a do Cristo Redentor desgovernado no céu do Rio de Janeiro. Quatro anos antes, quando as medidas do governo viviam seu auge e como Lula disse, a crise financeira mundial havia atingido o Brasil apenas como uma “marolinha”, a capa da mesma revista era a mesma estátua, decolando. O interessante é que as mesmas apostas que salvaram o Brasil do momento delicado em 2008 nos colocaram neste.
Externamente o PT aplicou uma ousada aproximação com a China e um consequente distanciamento dos EUA, tradicional parceiro. A isso, somou-se a união entre os vizinhos que faziam parte do MERCOSUL, e que assim como o Brasil, possuíam uma estratégia de distância dos ianques. A estratégia deu certo durante o auge do crescimento chinês, salvou a Argentina da enorme crise de 2001, levou grande desenvolvimento social a Venezuela e Brasil e ajudou Paraguai e Uruguai. Vender principalmente commodities à China para sustentar sua invejável infraestrutura se mostrou um grande negócio. O problema é que os governos de imenso apelo populista não reinvestiram dinheiro em infraestrutura por aqui, deixando seus países altamente dependentes de vender matéria prima aos chineses.
Por outro lado no continente, Peru, Colômbia e Chile não deixaram de exportar para a China, ainda assim, sem o que ficou conhecido como “amarras do MERCOSUL”, estes países buscaram ampliar seu comércio, principalmente para o promissor mercado do Pacífico. Só para se ter uma ideia, o país que mais deve crescer este ano é Papua Nova-Guiné, com os assustadores 15%, sendo um bom representante do que investir nas economias pouco desenvolvidas dessa região do mundo pode render. Colômbia e Peru lideram com sobras o crescimento na América do Sul, com médias entorno de 4% de aumento no PIB nos últimos anos, enquanto vale lembrar que Brasil, Argentina e Venezuela beiram a recessão.
O ciclo de crescimento absurdo chinês começou a dar mostrar de estar saturado. Com a adesão da paupérrima Bolívia recentemente, o que restou no MERCOSUL para o Brasil foi uma Venezuela absolutamente arrasada pela baixa do petróleo, uma Argentina em grave crise, um Paraguai que sequer conta com saída para o mar. A melhor condição fica com o Uruguai, um país com uma população equivalente a da Grande Salvador e que não pode ser considerado um grande parceiro para sustentar a sétima economia do mundo.
Internamente, apostar em crédito fácil e concessões como a redução do IPI, resolveu em um primeiro momento. O Brasil não sofreu com o desemprego, as indústrias seguiram em um bom nível e o país não foi fortemente afetado. O problema é que não dá para apostar para sempre que a população seguirá comprando carros e os chamados eletrodomésticos da linha branca todos os anos, o que acarreta que em um momento de desconfiança como este, as compras começam a cair, o resultado é crise no setor e o enorme número de demissões a que assistimos diariamente.
Altas da taxa de juros e do dólar são dois dos principais remédios para o problema. Apesar de poder atrapalhar planos em curto prazo, é graças à desvalorização do real que não temos nem chances de virar uma Grécia. O fato da moeda grega não poder ficar mais barata, e, portanto as exportações ficarem mais competitivas, sem aprovação da Zona do Euro talvez tenha sido o grande vilão do atual momento grego. Os juros ajudam a atrair investimento estrangeiro, e usando o parâmetro dos principais veículos internacionais do assunto, o Financial Times e a The Economist, parece que o Brasil vai retomando a confiança. No começo do ano, o FT chegou a inclusive a publicar um artigo que listava dez motivos pelos quais Dilma não terminaria o mandato. Os elogios a Joaquim Levy, chamado de “Chicago Boy” por conta de sua formação acadêmica também são frequentes nas publicações.
A medida é difícil de aceitar, mas tem de ser a austeridade. Voltando ao começo do texto, realmente há enormes gastos no governo e só o corte de muitos podem colocar o país na reta do crescimento e trazer de volta a confiança internacional. O problema são os desdobramentos políticos disso e o que ainda não veio à tona. Assunto para logo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Obrigado contravenção

"Se hoje temos o maior espetáculo audiovisual do planeta, agradeça à contravenção." É isso que declarou em entrevista o campeão do carnaval, Neguinho da Beija-Flor. Todo mundo sabe que o título pra mim tem a mesma importância de um estudo que define se ratos são destros ou canhotos, mas a polêmica desse ano não pode ser ignorada.
Futebol e carnaval queiram ou não, são as grandes expressões culturais do Brasil no mundo. A festa ganhou o destaque de sempre, mas desta vez com um agravante: foi financiada pela ditadura que é a mais corrupta do planeta, segundo relatórios da CIA.
O presidente da Guiné Equatorial é aquele ditador clássico africano: com uma fortuna inimaginável declarada na Forbes, e uma maior ainda sem ser investigada. Acusado de lavagem de dinheiro, repressão, tortura, assassinato de opositores, procurado no mundo inteiro e outros desvios. E mais, financiador do carnaval no Brasil.
Vi alguns dizendo: qual é a importância de um resultado do desfile das escolas de samba, que há anos é sabidamente palco de lavagem de dinheiro para bicheiros, construtores mal intencionas, e todos os outros tipos de bandidos, em meio ao maior escândalo de corrupção da nossa história? Pra mim a relação é clara.
Vamos falar da outra expressão cultural: o futebol brasileiro é administrando por uma das confederações mais corruptas do mundo, com indícios de venda de jogos de maneira ilegal, venda de votos de maneira ilegal, venda de licenças trabalhistas de maneira, pasme ilegal, e de tudo mais que o futebol pode render dinheiro de maneira ilícita.
A soma das dividas dos clubes brasileiros ultrapassa o PIB de mais de 30 países e não há indícios de que ela será quitada da maneira devida tão cedo. Até agora só falei o que é sabido de qualquer um, e temos questões como o “Campeonato Brasileiro de 2005” que se um dia vier à tona, provavelmente aquele clichê de que ficaríamos enojados, seria a única reação.
O maior escândalo da nossa história é mais relevante do que problemas nos nossos dois “circos”? Claro. A questão é que um povo precisa de sua cultura. E quando suas duas maiores manifestações são absolutamente corrompidas e indignas de confiança, acreditar na capacidade de mobilização fica cada vez mais complicado.
Enquanto com o objetivo de ser campeão do carnaval for normal aceitar dinheiro de milicianos, ditadores e seja lá de quem mais for, como não será normal aceitar os lobbys das empreiteiras para se fazer política? Na medida em que se endividar com os cofres públicos, sem perspectivas de pagamento para montar times campeões for aceitável, como reclamar de trocas de cargo entre os governantes para alcançarem seus objetivos?
A ideia de que “vale tudo” está dentro das mais importantes bases da nossa sociedade. E dificilmente vai ser um diretor de empresa ou um político que passou a vida toda aceitando qualquer meio para vencer que vai mudar isso. O importante não é questionar o título de quem quer que seja. O vital para o futuro do Brasil é mostrar para nos mesmos e para o mundo que Petrobrás e carnaval a parte, Charles de Gaulle estava errado e que somos sim um país muito sério. E se reconhecer os problemas no carnaval for o meio para começar isso, muito obrigado contravenção.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Massacre sem Serra

Toda revolução deixa vítimas. Embora não tenhamos cortado a cabeça de nenhum czar, nem levado ninguém para a guilhotina, muito menos derramado o sangue de milhares de rebeldes como vêm acontecendo na Síria, perdemos muito com a "Primavera Brasileira" de Junho.
Primeiro os "ganhos": a PEC 37 não foi aprovada, o que naqueles tempos seria praticamente dizer em público que a política brasileira não tem nada com sua população. E mais recentemente, segundo alguns, nossa "revolução" fez com que os "mensaleiros" fossem condenados. Alguns senhores na casa dos 60, irem para a cadeia, com uma série de regalias, inclusive a possibilidade de um deles trabalhar como gerente de hotel com um salário girando 20 mil reais. Este foi o prêmio da população por ir as ruas.
Agora o verdadeiro impacto: a prisão destes senhores mostrou, faltando um ano para as eleições, que o Brasil sofreu um processo, muito bem denominado por alguns como os "militantes torcedores". São aqueles que não importa qual acusação, ou condenação dos membros de seu partido, eles irão os defender em qualquer caso. Vimos isso com os "mensaleiros", e provavelmente veremos isso nas urnas no ano que vêm, com os mesmos senhores, apesar de qualquer escândalo, conseguindo sua reeleição.
Além disso, constatamos outra coisa com tal prisão. Imprensa imparcial é privilégio de país desenvolvido. A capa da Carta Capital, na qual o Mensalão aparece como algo sem a menor importância, enquanto a extinção de espécies(com uma perereca como foto principal), simplesmente esmaga qualquer possibilidade de jornalismo neste país. Em contrapartida, a "rival" Veja, só faltou antecipar a capa de final de ano, e encher a publicação de fogos de artificio para a condenação.
Mas agora vamos para as vitimas de nossa revolução: a intenção de mudar, e a mais triste, a esperança de uma população. A primeira é simples, durante as duas semanas de protestos de nossa primavera, a insatisfação e vontade de transformar o país, eram tão latentes, que sequer era possível nomear as principais reivindicações. No entanto parecia que todos sabiam que aquilo era apenas o começo para o que viria depois. A mudança estava chegando.
Com quem você conversasse a ideia era esta. O Brasil começava a mudar sua história, de ali em diante, não seríamos mais explorados, teríamos os serviços que gostaríamos, e tudo aquilo que pedimos. Ouviriam tudo ( até o cidadão que levou cartaz com os dizeres: "Eu gosto de bacon!") Enfim, era uma nova era.
Mas as forças leais ao governo, derrubaram a população. E nem precisaram de armas para isto, já que as mal equipadas polícias dificilmente conseguiriam tal feito. Deram o que a população queria na hora, e o resto ficou por conta dela. Acharam mais interessante voltar para o Facebook, para procurar um líder e o que buscar, e ai morreu a vontade de lutar.
A esperança durou pouco depois disso. Aqueles que acreditavam que na Copa do Mundo, o mundo iria ver a mudança na frente de seus olhos, já estão mais otimistas com o Hexa do que com tal mudança. Acreditar que as coisas vão melhorar virou condição de alguns, e isto faltando tão pouco para chegarem as eleições que poderiam ser diferentes de todas. Faltando tão pouco, já se sabe até quem deve ir para o segundo turno, sem nenhuma mudança. O fim de qualquer suspiro de nossa esperança. Ir para a rua feriu e matou muita gente. Mas pra sorte do governo, só eles viram e sabem disso.