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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O terrorismo mais perto do que se pensa

“Creio que a síndrome do século XXI é o choque de fanáticos de todas as cores e o resto de nós.” A frase é de um dos maiores escritores israelenses, Amós Oz, nascido em Jerusalém durante o mandato britânico, e que se considera um especialista em “fanatismo comparado”. Vivendo na Terra Santa por tanto tempo, este local capaz de suscitar tantas paixões, é compreensível que seu ensaio “Como Curar um Fanático” seja uma grande peça para entender o extremismo. Só não diria que é necessário, pois este tipo de imposição já é um dos princípios apontados por Oz para o fanatismo, do qual nenhum ser humano é completamente imune.

Um dos antídotos contra o fanatismo apontados por Oz é a imaginação, atrelada à capacidade de se colocar no lugar do outro. Usando desta imaginação, suponhamos que o autor do massacre em Campinas fosse muçulmano, ou simplesmente tivesse gritado algumas expressões em árabe. Quais seriam os principais destaques para o atentado? “Terrorismo islâmico chega ao Brasil?” “Estado Islâmico assume a autoria de atentado em Campinas?”. Se as repercussões não fossem tão extremas, asseguro que o termo “terrorismo” e a religião do autor teriam sido bem mais difundidos do que ocorreu no caso.

Segundo Oz, a luta entre fanáticos e o resto da sociedade se dá entre pessoas que “acreditam que o fim, qualquer fim, justifica os meios, e o resto de nós, que acredita que a vida é um fim, não um meio.” Os fins no caso do atentado em Campinas, seriam as ideias misóginas e machistas do autor, e a ação em si, que seria algo justificável para ele, o meio. É o que Oz descreve quando diz “É uma luta entre os que por um lado pensam que justiça- o que quer que entendam por esta palavra- é mais importante que a vida, e os que pensam que a vida tem muito mais importância que outros valores, convicções ou crenças.” Nos trechos divulgados da carta do terrorista, em que este relativiza a possibilidade de morrer, esta luta é nítida.

Mas não foi só este massacre no ano novo que teve seu viés terrorista deixado em segundo plano. No ano passado, um supremacista branco nos EUA invadiu uma igreja e matou nove pessoas negras, o que foi apenas mais um dentre as dezenas de crimes de ódio envolvendo massacres no país. Além disso, a deputada britânica Jo Cox foi morta em um atentado de um ultranacionalista que considerava os contrários ao Brexit, assim como Cox, traidores. Pouco se falou em terror.

Para o autor argentino J.L. Borges: “O nacionalismo só permite afirmações e, toda doutrina que descarte a dúvida, a negação, é uma forma de fanatismo e estupidez.”. No âmbito do terrorismo, o nacionalismo foi uma das formas de fanatismo que mais fizeram vítimas durante o século XX. As organizações, ETA no país basco, IRA na Irlanda do Norte e a própria Organização pela Libertação Palestina (OLP), até o abandono da luta armada, compuseram grande parte do cenário do terror no período, assim como as milícias de ideal marxista, como as FARC na Colômbia, e o PKK no Curdistão, que também possui um viés nacionalista. O terror islamista como conhecemos vem do final do século XX, com grupos como o Hamas e Al Qaeda, de orientação sunita extrema. Até então o terrorismo muçulmano era vinculado mais a grupos xiitas, de exemplo, o Hezbollah.

Marxismo, nacionalismo, extremismo islamista, anarquismo e qualquer outra orientação que tenha servido como base para fanáticos ao longo da história propõe certezas para os anseios do ser humano. Segundo Oz estas certezas se alteraram de tempos para cá: “Até a metade do século XIX, a maioria das pessoas, na maior parte do mundo, tinha pelo menos três certezas fundamentais: onde eu vou passar a minha vida, o que vou fazer da minha vida e o que vai acontecer comigo depois que eu morrer.”. Segundo o autor, em um mundo de pouca mobilidade social e geográfica, sendo temente a seu deus, a vida terminaria no paraíso. Hoje não é bem assim.

Um estudo recente indicou que uma edição dominical do New York Times oferece mais informação do que, em média, um cidadão do século XVII recebia durante toda a vida, o que complica quaisquer certezas. O diplomata norte-americano Henry Kissinger classifica o saber em três instâncias: informação, conhecimento e sabedoria. De fato, esta é a era da informação. A questão é o quanto disso o ser humano processa para transformar em conhecimento, ou sabedoria. As duas últimas instâncias necessitam de análises profundas, reflexões, sendo fundamental compreender o outro lado das histórias.

O que temos hoje não chega a isso. Pessoas comentam com fanatismo simplesmente ao observarem uma manchete, seja ela sobre terrorismo, Trump, aquecimento global, Temer, Lula, Dilma, ou mesmo fofocas. Não se busca o conhecimento para entender o que ali ocorre, e já se exclama “é”, e por vezes até mesmo se discute com conhecidos do “não é”. Evidentemente esta instância do saber fica bem longe da sabedoria.

Claro que dentro deste fanatismo existem várias instâncias. Não se pode comparar alguém que tenta convencer se foi ou não golpe e um vegano que quer fazer alguém parar de comer carne, com um terrorista ou um perpetrador de limpeza étnica. Mas para Oz, o fanatismo tem duas essências fundamentais: “autojustificativa sem concessões” e “o desejo de forçar outras pessoas a mudar”. E neste aspecto os casos se enquadram, e somos todos suscetíveis, já que como traz o autor: “A natureza humana parece que não muda. A única diferença entre fazer amor no tempo do Rei Davi e fazer amor hoje em dia é o cigarro depois”.

Como traz o começo do texto, também acredito que a batalha contra o fanatismo será uma síndrome do século XXI, e arrisco dizer que é a principal questão deste, junto às mudanças climáticas. Portanto, combates como os que matam jihadistas sem destruir as raízes que os levam a isto serão como enxugar gelo, mas gerando um ciclo vicioso de derramamento de sangue. Lidar com as causas deste extremismo é um dos grandes desafios, e será de suma importância entender que a fonte é a mesma, seja para islamistas, misóginos, nacionalistas ou anarquistas: nossa própria natureza.

A propósito, outros dois antídotos que Oz sugere contra o fanatismo são o humor e a literatura. Humor, e não sarcasmo, o autor define como a capacidade de rir de si mesmo. Dizer sarcasticamente que contar uma piada a um terrorista pode parar um ataque não serve, mas em compensação, o Grupo Estado Islâmico nunca soube rir de si mesmo e jura de morte quem faz sarro com ele. E a literatura sugerida não é a superficial, ou a que suscita ainda mais fanatismo, e sim a que coloca o leitor na mente de outra pessoa. Diria que é vital a todos, mas como trouxe J.L. Borges: “A leitura não deve ser obrigatória. O prazer não é obrigatório, o prazer é algo buscado.”.

Uma aula em 100 páginas (FOTO: Divulgação)


domingo, 3 de julho de 2016

"O brasileiro não lê"

Não me surpreende o espanto que alguns de meus amigos tiveram quando viram minha leitura mais atual. “David Copperfield” é um livro enorme, de 1300 páginas nesta versão da agora saudosa Cosac Naify, segundo o frete pesando um quilo e para um destes amigos: “uns três livros que eu já acho grandes e nem leria”. A obra de Dickens conta toda a história do senhor Copperfield, um britânico no século XIX, e para se ter ideia do número de detalhes, o primeiro capítulo se chama “Nasço”.

Charles Dickens, George Orwell, Ernest Hemingway, Aldous Huxley, Daniel Defoe, J.D. Sallinger são só alguns dos nomes da literatura na língua inglesa que eu lamentavelmente teria perdido caso seguisse a linha literária que me fora lecionada na escola. Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Jorge Luis Borges, são alguns dos nomes latinos que não estão nos programas de vestibular, por uma ideia de nacionalismo que para o último: “só permite afirmações e, toda doutrina que descarte a dúvida, a negação, é uma forma de fanatismo e estupidez.”.

Em compensação travei verdadeiros embates para decorar as características dos trovadores portugueses, assim como para saber as métricas de poemas eu particularmente dava um valor literário inferior ao de qualquer porta de banheiro na escola. Assim, passei pelo programa do vestibular de literatura em português colando, pegando resumos na internet, e com outros métodos pouco nobres, mas que foram os recursos para a minha negação em ler qualquer material recomendado na escola, o que acredito que caiba à psicanálise, mas tenho minhas teorias.

Imagino se o mesmo método que me fazia estudar livros como “Os Sertões” de Euclides da Cunha, comumente chamado de livro mais chato da história do Brasil, fosse aplicado em outras áreas. Provavelmente se eu tivesse que assistir somente filmes nacionais, tendo de trocar “O Poderoso Chefão” por “Cilada.com”, teria desenvolvido uma aversão a tudo ligado ao cinema, inclusive à pipoca. Felizmente no caso da sétima arte, há o nobre exercício da humildade, e reconhecemos o valor do que vem de fora, enquanto fomentamos o desenvolvimento do cinema nacional, exemplo de bons filmes recentes como “Tropa de Elite” e “Se eu fosse você” (gostei bastante).

Mas há na literatura uma ânsia misturada até mesmo com arrogância de construir uma identidade cultural brasileira impondo que jovens tenham de ler obras de qualidade questionável, normalmente em uma linguagem completamente desconexa de seu meio (Rubem Fonseca pode ser uma exceção, mas por que ele ao invés de Michel Houllebecq?) e dando ênfase a questões menos relevantes dentro da obra, como se o sistema de rimas do poema é AABB, ou ABBA, ou qualquer coisa assim. Na melhor das hipóteses a literatura genuinamente brasileira tem 300 anos, o que é um espaço de tempo ínfimo perto dos milênios das obras ocidentais, isso sem contar na ignorada literatura chamada de “Oriental”, que condena obras clássicas como “As Mil e Uma Noites” ao esquecimento, assim como grandes autores modernos, por exemplo, Amós Oz e Edward Said, o segundo um dos maiores críticos do senso comum da divisão “Ocidente e Oriente”.

Boa parte dos jovens brasileiros hoje lê somente por obrigação dos programas escolares. E a tendência é que a concorrência seja cada vez mais desleal para os livros, já que hoje o ato de ler disputa com a televisão, vídeo game, e a internet presente em diversos lugares. Além disso, a capacidade de se concentrar na leitura de uma obra grande, é comprovadamente afetada pela dispersão das atenções em um mundo que boa parte daquilo que se lê não possui mais de 140 caracteres.

Existe um aspecto importante, o do que os brasileiros estão lendo, mas em longo prazo isto pode até deixar de ser um problema, com as próximas gerações podendo reduzir esta pergunta a seguinte resposta: nada. Confesso que não fico satisfeito quando chego a uma livraria e vejo as obras de maior destaque, assim como quando vejo referências ao autor brasileiro mais vendido, mas sem dúvidas estas contrapartidas são melhores do que o cenário em que as lojas físicas das principais livrarias do Brasil só venderão smartphones e jogos de vídeo game.

Claro, existe o aspecto do que se perde nas traduções. Quando se estuda somente obras em seu idioma original, o que se ganha é de grande valor, tendo em vista de que há livros inteiros discutindo somente o problema de traduções de obras como “As Mil e Uma Noites”. Mas é preciso rever urgentemente o modo de se estimular os jovens à leitura, levando em conta que a tendência é a de que o programa de literatura no currículo escolar ocupe cada vez mais a fração que tange ao repertório literário do brasileiro.

As perdas em um país distante da leitura são inúmeras e irreparáveis, a começar pela própria composição literária. Quanto mais livros forem atrelados a uma série de termos que tem de ser decorados para se passar no vestibular, a repulsa a estes tende a crescer, afinal de contas, poucas pessoas depois de aprovadas se preocupam com logaritmos ou a reprodução das briófitas. Se os argumentos não foram suficientes, fica o apelo pessoal, já que como Llosa classifica os amantes do primor da literatura como “dinossauros”, eu não quero ser visto como um beirando os vinte anos de idade.