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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Achei a paz mundial

Chorei copiosamente em 2015 quando vi a foto de Aylan Kurdi, hoje, na de Omran não. Como disse no caso de Kurdi, a tragédia pode ser incorporada, se tornando comum. Às vezes ocorre até o pior, vira número e estatística, como as que dizem que mais de 60 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil, ou que a Guerra da Síria já deixou mais de 500 mil vítimas. Citando Stálin, “uma única morte é uma tragédia, a de um milhão é estatística”.

Enquanto o mundo segue sua vida normal, competindo ou assistindo aos jogos olímpicos, é travada em Aleppo, a outrora segunda cidade da Síria, lar de médicos, advogados, pedreiros, estudantes, uma das maiores batalhas urbanas da era moderna. O lado Oeste é dominado pelo regime sírio de Assad, e o lado Leste pelos muitos rebeldes, incluindo a agora chamada Fatah Al Sham, até mês passado Al Nusra que tinha ligações com a Al Qaeda, o que segundo os membros não mantém nesta nova fase. A presença deste e de outros terroristas justificaria os bombardeio russos e sírios nesta região, e a passividade do Ocidente que acena com uma “cooperação” contra o terror.

Aleppo também era o lar de Omran e sua família, o menino de cinco anos que nunca conheceu a paz, e que sua fotografia aparece na mídia lembrando a existência do conflito sírio. Levianos pelo mundo pedem o fim do conflito e dos bombardeios, sem fazer ideia das complexidades deste conflito que resumidamente têm três frentes, Grupo Estado Islâmico, rebeldes e o regime, mas que na verdade envolvem interesses geopolíticos, religiosos e econômicos, de dezenas de países e povos que vão desde norte-americanos a turcomenos.

A imagem é forte, e tem um potencial de mobilização muito maior que qualquer relato por mais atroz que seja sobre o que acontece na Síria, e mais ainda do que qualquer número sobre a maior catástrofe do século XXI. Assim como no caso de Aylan, a partir deste momento o drama, no caso dele o dos refugiados no Mediterrâneo, e agora o caos em Aleppo, as atenções do mundo vão para resolver o problema, até outrora pouco conhecido pela comunidade internacional, e negociado colocando interesses mesquinhos à frente da humanidade pelos responsáveis.

A União Europeia organizou uma reunião emergencial para discutir a situação em Aleppo. Até então, reinava a passividade frente à Assad, responsável pelo bombardeio de Omran, e pelo maior número de mortos na guerra da Síria, já que este é visto como um “mal menor” que o Grupo Estado Islâmico, visão que em termos gerais compartilho. Mas enquanto isso, a maior ação sobre o conflito eram as reuniões em Genebra, quase sempre com o mesmo resultado fracassado, especialmente por não concordarem com russos em alguns pontos, como a continuidade ou não de Assad.

E nisso Aleppo sendo destruída. Cessar-fogo, e a importantíssima ajuda humanitária chegando pela via de Castello são discutidos em meio a interesses geopolíticos. Para os habitantes, o cenário já foi descrito por muitos como “um inferno na terra”, com dezenas de crianças morrendo em meio aos bombardeios, e também médicos, que se esforçam bravamente para tentarem amenizar o drama dos muitos que não tem medicamentos e às vezes nem água ou comida, daí a importância da ajuda humanitária.

Que a guerra vai continuar é fato. Mesmo tendo sofrido algumas derrotas recentemente em Aleppo, Assad tem tudo para conquistar o outro lado da cidade, o que vai desde um armamento melhor, no caso os decisivos aviões, e aliados muito mais engajados. Crianças vão continuar tendo que ir a escola no porão, isso para as mais sortudas, já que tem de conviver com bombardeios e balas perdidas. O alento vai para Omran, que graças a qualquer força superior para quem acredita, e para quem não, devido ao que for, sobreviveu, não padecendo assim como Kurdi. Sua família provavelmente vai servir de troféu em um leilão para qual país vai aparecer como solidário já deve estar sendo selado, como no caso do pai de Aylan, único sobrevivente no naufrágio que matou sua família, e que conseguiu se refugiar depois da tragédia, o que não havia ocorrido antes quando pediu ajuda ao Canadá. A reflexão que fica é o poder de uma imagem, frente a burocratas responsáveis por prolongar a tragédia. Seria a paz mundial fácil: mais fotógrafos e menos diplomatas?
                                         Eles também queriam escolher um dos três iniciais
Mas a escolha é essa

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A humanidade em uma lente

Na medida em que você ouve e lê relatos sobre as atrocidades da humanidade, esses parecem cada vez mais perderem a capacidade de comover e nos fazer lembrar de que aquilo se trata de outros seres humanos. Uma frase creditada a Stálin diz que “Uma única morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística”, e ilustra bem isso. Recentemente li um dos livros que considero entre os mais difíceis da minha vida, “Gostaríamos de informa-lhe de que amanhã seremos mortos com nossas famílias” trata do genocídio de Ruanda e relata como vizinhos de uma hora para outra passaram a matar famílias inteiras com facões simplesmente por uma suposta diferença entre etnias. Não consegui ler dois capítulos seguidos sem uma longa pausa para lamentar.

Outra obra que tive acesso há pouco, “A Civilização do Espetáculo”, do Nobel Mario Vargas Llosa, trata exatamente da diferença que as imagens têm de nos mobilizar em comparação aos outros meios. Nestes últimos tempos eu já havia ouvido e lido sobre as maiores barbaridades cometidas pelos três lados da Guerra da Síria, ficado chocado com o número estimado de mortos no ano passado, mais de 70 mil, no entanto a foto do menino morto na praia, tentando fugir dos horrores que lutamos para entender, teve um impacto sem precedentes.

Não sei se a comoção pelo caso se dá pelo fato de praticamente todos nós conhecermos, e termos enorme carinho, com alguma criança de idade parecida, ou meramente pelo tão perturbante e surreal que é aquela imagem. A questão é que o drama dos refugiados e o desastre na Síria tomaram outra esfera de mobilização depois do caso. O problema disso, que é o endossado na obra de Llosa, é que a mesma capacidade que uma foto tem de comover, ela pode ter para alienar sobre o seu real significado.

O que ocorreu naquela praia turca foi um reflexo de um drama vivido por milhares de pessoas em um país devastado por uma guerra, que cabe a nós refletirmos, interessa a quem? A outra parte da história são as péssimas condições que os refugiados enfrentam para tentarem parar de lutar pela sobrevivência e passarem a ter uma vida. O impacto que uma imagem como essa tem em nossos instintos é perigoso, já que vale lembrar que a revolta gerada pelos vídeos do 11 de setembro acabaram dando embasamento para a invasão do Iraque, uma operação desastrosa que tem inclusive como consequência a atual Guerra na Síria que vitimou o pobre menino. A falta de racionalidade em uma situação como esta, pode acabar levando a adoção de medidas equivocadas, em um momento que apesar das enormes dificuldades, Irã, EUA e Rússia parecem estar concordando em uma estratégia comum, o que seria um grande passo para o fim da catástrofe.

Enquanto isso na Europa, não podemos nos esquecer da quantidade enorme de movimentos xenófobos, que inclusive vêm se refletindo na política. A Suécia, famosa pelo bom trato aqueles que precisam de ajuda, elegeu recentemente para cargos legislativos políticos de ideologia próximas ao neonazismo. Na França, o berço dos atuais princípios democráticos, quem lidera as pesquisas para as eleições do próximo ano é Marine Le Pen, da Frente Nacional, famosa pelas tentativas de combate aos imigrantes. Seu pai, Jean-Merie Le Pen, fundador do partido, chegou a declarar que o “Sr. Ebola” seria a solução para os problemas relativos à migração, em uma frase indigna de ser comentada.

A reação frente a uma imagem como aquela, tende a não ser das mais fáceis. O El País decidiu sequer publicar a imagem, enquanto outros veículos de igual prestígio quiseram demonstrar o drama que a foto representa. Chorar, se indignar, ou qualquer outra coisa nesse sentido é absolutamente comum. Mas não devemos nos esquecer de tentar buscar as soluções para que nunca mais tenhamos de nos deparar com uma imagem como esta e lembrar que lágrimas não servem apenas para lubrificar os olhos.


Descanse em paz Aylan Kurdi.